Erro de digitação na tela custa mais que erro num e-mail. Ele é grande, se repete toda vez que o vídeo toca e o cliente vê na primeira assistida, quase sempre no lugar que ele conhece melhor do que você: o nome do produto dele ou o cargo do diretor.
O editor deixa passar por um motivo simples. A gente lê o que quis escrever, e na quinta passada pelo corte o cérebro completa a palavra esperada. A saída é conferir o texto na origem, ler o vídeo renderizado de propósito e deixar um programa olhar os pixels.
Resumo
- Liste todo lugar por onde entra texto no vídeo: títulos, grafismos, slides, gravações de tela, filmagem e legendas.
- Aprove o texto num documento antes de alguém digitar na timeline.
- Use o corretor do seu editor, sabendo que ele só vê texto digitado dentro dele.
- Leia o arquivo exportado, não a timeline, numa passada só para isso.
- Deixe uma ferramenta ler o export com OCR e confirme cada palavra apontada.
Saiba de onde vem o texto do seu vídeo
O corretor só confere texto que ele consegue ler como texto. Num vídeo institucional ou de rede social, o texto da tela vem de vários lugares, e a maioria chega na timeline como imagem:
- Títulos e GCs digitados no editor. São texto, então o corretor do editor enxerga.
- Motion graphics renderizados em outro programa. Um título animado no After Effects ou no Motion chega como clipe de vídeo. Para o editor, as palavras viraram pixels.
- Slides, gráficos e prints. Uma apresentação exportada como imagem, o print de um sistema ou o gráfico da apresentação do cliente.
- Texto na filmagem. Uma placa no set, uma camiseta, a tela de um celular ou a gravação de tela de um software.
- Legendas. Em geral são texto, mas muitas vezes feitas por outra pessoa, em outra ferramenta, no fim do projeto.
Faça essa lista para o vídeo que está na sua frente. Cada origem pede uma conferência própria, e as que chegam como imagem são onde o erro sobrevive mais tempo.
Aprove o texto antes de ele chegar na timeline
O erro mais barato de corrigir é o que nunca foi digitado. Ponha todo texto da tela no roteiro ou numa planilha à parte, exatamente como vai aparecer, e peça a aprovação do cliente ali.
Passe o corretor do próprio documento e copie e cole dele nos títulos e grafismos em vez de redigitar. É na redigitação que entram “gernete” e outras letras trocadas.
Nomes e cargos merecem uma lista própria, confirmada por escrito pelo cliente. O checklist de lower thirds detalha esse passo, inclusive os acentos que algumas fontes não desenham.
Use o corretor do editor, sabendo onde ele para
O Premiere Pro tem corretor de verdade desde a versão de dezembro de 2021 (22.1.1). A aba Gráficos do painel Texto lista o texto de todo gráfico do Premiere e todo modelo de Motion Graphics da sequência, e o corretor também cobre legendas e transcrição. A palavra errada ganha sublinhado vermelho, e o clique com o botão direito mostra sugestões.
Ligue pelo menu do painel Texto ou em Editar > Ortografia, e rode quando os grafismos estiverem fechados.
Ele tem dois pontos cegos:
- Só confere o texto que é do Premiere. Título renderizado no After Effects, slide, print ou placa na filmagem ficam invisíveis para ele.
- Nem sempre é confiável. Usuários no fórum da Adobe relataram o corretor deixando erro passar em versões de 2025 e 2026. Confira sua versão e o idioma configurado antes de confiar num resultado limpo.
Outros editores e ferramentas de título variam, e muitos nem conferem ortografia. Nenhum deles lê texto que já faz parte da imagem.
Leia o export numa passada separada
Leia o arquivo que vai ser entregue, não a timeline. O export é o que o cliente vê, depois de os grafismos renderizarem, as fontes serem trocadas e as correções de última hora entrarem.
Faça da leitura do texto uma passada própria, separada da conferência de imagem e som. Quando você tenta fazer as duas coisas juntas, acaba acompanhando a história em vez de ler.
- Pause em cada texto e leia palavra por palavra. Ler de trás para frente quebra o hábito de completar palavras.
- Leia em voz alta. “Gernete” lido em voz alta soa errado de um jeito que a leitura silenciosa não denuncia.
- Confira contra o documento aprovado, não contra a memória: nomes, cargos, números, datas, endereços e preços.
- Chame alguém de fora quando der. Quem não viu o corte pega o que o editor lê sem ver.
- Repita em cada formato. A versão vertical ou quadrada reorganiza e recorta o texto, e uma palavra pode quebrar ou ser cortada na borda.
O checklist de QC final põe essa passada de texto em ordem com o resto da conferência antes da entrega.
Deixe um programa ler os pixels
Ferramenta que lê o vídeo renderizado não quer saber de onde veio o texto. Ela tira quadros do export, roda reconhecimento óptico de caracteres (OCR) em cada um, confere as palavras num dicionário e dá o timecode de cada suspeita.
Isso cobre justamente as origens que o corretor do editor não vê: títulos renderizados, slides, prints e texto na filmagem.
Espere dois tipos de ruído:
- Lettering estilizado é lido errado. Fonte com contorno, condensada ou animada pode transformar uma palavra certa em alarme falso. Cada apontamento é uma suspeita para olhar, não um veredito.
- O dicionário não conhece as suas palavras. Nomes, marcas e jargão parecem erro para um dicionário. As boas ferramentas pulam palavra com inicial maiúscula ou aceitam uma lista de palavras, o que também quer dizer que não avisam quando um nome está errado.
Algumas opções:
- Video Spell Checker é um app de Mac feito só para isso. Você solta o vídeo pronto, ele lê o texto e exporta os erros como marcadores para o Premiere Pro ou o DaVinci Resolve. Em outubro de 2026 ele estava em lista de espera e só com dicionários de inglês.
- O AI Review do RecReview roda numa versão sob demanda, ou em todo upload com o auto-review ligado. Ele lê o texto da tela e aponta erro claro de ortografia, inclusive em nome, com o timecode, em português, inglês e espanhol. Cada apontamento aparece na lista de comentários junto das notas do cliente, e você marca como resolvido ou descarta. Na versão seguinte, ele também lê o texto onde o cliente pediu correção na anterior e marca cada pedido como feito, parcial ou não feito, ou como incerto ou para conferir no olho.
Nenhuma ferramenta substitui a leitura contra o documento aprovado. O programa pega a palavra escrita errado. Só uma pessoa com a lista do cliente pega o nome escrito certo que é de outra pessoa, o cargo do ano passado ou o preço que mudou.
Uma passada de ortografia que cabe no seu QC
Rode nesta ordem, porque cada etapa sai mais barata que a seguinte:
- Antes da edição: texto da tela aprovado num documento, nomes e cargos confirmados por escrito.
- Na edição: texto colado do documento, corretor do editor rodado com os grafismos fechados.
- No export: leitura automática dos quadros, cada apontamento conferido na imagem.
- Por último: leitura humana de todo texto contra o documento aprovado, uma vez por formato de entrega.
Feito assim, o cliente gasta a revisão com a história e o ritmo, não caçando erro de digitação.




