O primeiro corte é a hora mais barata de mexer na história. Nada foi colorido, mixado ou animado ainda, então trocar um bloco de lugar custa uma hora de ilha, e não uma semana.
Também é a pior hora para julgar a cor. O corte bruto parece inacabado de propósito, e a revisão que gasta energia com a trilha provisória ou com a imagem sem cor deixa passar justamente o que essa rodada existe para resolver.
Em resumo
- Revise o primeiro corte olhando estrutura, história e ritmo, nessa ordem.
- Assista uma vez direto antes de escrever qualquer coisa e anote onde a atenção caiu.
- Deixe cor, mixagem, trilha definitiva e GCs para depois, menos o que pede regravação ou o jurídico.
- Escreva o problema sobre um trecho do vídeo e deixe a solução com o editor.
O que é o primeiro corte, e o que ele ainda não é
O primeiro corte é a primeira montagem do vídeo inteiro, com a história na ordem e a duração perto de onde deve terminar. Também chamam de corte bruto ou de montagem, e em vídeo de depoimento ele costuma sair de uma decupagem da entrevista.
O que ele ainda não tem importa tanto quanto. Conte com trilha provisória, imagem sem correção de cor, som sem mixagem e GCs e cartelas de marcação, alguns com lorem ipsum.
As transições são corte seco ou fusão rápida. O ritmo está solto, porque apertar um bloco que pode sair amanhã é trabalho jogado fora.
O que olhar no primeiro corte
Olhe primeiro a estrutura, depois a história, depois o ritmo. Walter Murch, em Num Piscar de Olhos, faz um ranking do que torna um corte bom e põe a emoção em 51% e a história em 23%, com o ritmo bem atrás. O primeiro corte é onde essas duas se resolvem.
Estrutura
- A abertura apresenta o vídeo? Os primeiros dez segundos precisam dizer o que é aquilo e por que continuar assistindo.
- Os blocos estão na ordem certa? Um depoimento que guarda a melhor fala para o fim pode perder metade do público antes de chegar nela.
- O final fecha? Ele precisa responder ao que a abertura prometeu, e a chamada para ação tem que estar onde a pessoa espera.
História e mensagem
- A mensagem principal fica clara sem o briefing do lado? Pense em alguém que nunca leu o roteiro.
- Cada bloco se justifica? Se dá para tirar um trecho sem perder nada, ele é candidato a sair.
- As falas da entrevista ainda dizem o que a pessoa disse? Juntar metades de frases diferentes pode mudar o sentido, e esta é a rodada para pegar isso.
Ritmo e duração
- Onde a sua atenção caiu? Anote os momentos em que você olhou o celular, mesmo sem saber explicar por quê.
- Qual a duração contra o combinado? Se o briefing pedia 90 segundos e o corte tem 2:40, a conversa de estrutura precisa incluir o que sai.
O que deixar para depois
Deixe o acabamento para as rodadas feitas para ele. Cor, mixagem, trilha definitiva, animação, erro de digitação em GC provisório e o frame exato de cada corte mudam depois do primeiro corte.
Um comentário sobre isso agora é resolvido duas vezes, uma no corte bruto e outra quando o elemento definitivo chega. E ainda tira a conversa da estrutura, que é a única coisa que essa rodada muda barato.
Há exceções. Estas vale apontar já no primeiro corte:
- Uma pessoa na imagem que não devia estar ali, ou que não assinou autorização de uso de imagem.
- Uma afirmação que o jurídico ou o compliance vai barrar.
- Um plano que vai precisar de regravação ou de material novo, porque isso consome agenda.
- Problema de marca na própria imagem, como um logo antigo na parede.
Como assistir e escrever os comentários
Assista uma vez sem parar. A primeira impressão de ritmo só existe na primeira vez, e pausar a cada dez segundos transforma o corte bruto numa lista de ajustes pequenos.
Depois assista de novo e escreva. Prenda cada comentário ao trecho de que ele fala. “De 1:10 a 1:45 a entrevista repete a mesma ideia” é algo que o editor resolve, e “está lento” não é.
Descreva o problema e deixe a solução aberta. “Me perdi no bloco do meio” dá espaço para o editor reordenar, cortar ou pôr uma frase de locução, e “corta de 1:20 a 1:35” escolhe uma dessas por ele. Mais no guia de como dar feedback de vídeo.
Traga quem decide para esta rodada. Quem vê o vídeo pela primeira vez no corte fino e pede outra estrutura zera o cronograma. Se várias pessoas revisam, combine quem dá a palavra final antes de devolver os comentários.
Do corte bruto ao corte fino
O corte fino responde aos comentários do primeiro corte. Blocos mudam de lugar ou saem, os takes ficam escolhidos e o ritmo é trabalhado frame a frame.
Confira o corte fino contra os seus comentários do primeiro corte, um por um, e assista de novo do começo ao fim para sentir o ritmo novo. Com a estrutura de pé, a próxima decisão é travar a edição, assunto do post sobre o que é picture lock.
Como isso funciona no RecReview
No RecReview, cada corte que você sobe numa tarefa vira a próxima versão numerada, então o corte bruto e o corte fino ficam na mesma página. Com o controle de versões dá para tocar a v1 e a v2 lado a lado, sincronizadas, e ver o que mudou de lugar.
As teclas I e O marcam um trecho no player, e o comentário vale para o pedaço inteiro. O trecho aparece como uma barra embaixo da linha do tempo, que é o formato certo para um comentário como “esse bloco se repete”.
No computador, quem prefere explicar falando pode gravar um comentário em áudio ou vídeo no próprio momento. Ele fica na linha do tempo como qualquer comentário escrito.
Comentário “Só a equipe” não sai da equipe. Use para a passada interna antes de o cliente ver o corte e para os pontos que vocês decidiram guardar para o corte fino. O cliente nunca vê esses comentários e não consegue escrever um.
Com o modelo de automações Produção de Vídeo, toda versão nova entra em revisão interna assim que sobe. Quem revisa pela equipe pode aprovar internamente ou devolver para o editor com um prazo novo.
Do lado do cliente, a rodada do primeiro corte termina com comentários e Solicitar alterações. Guarde o botão Aprovar do cliente para o vídeo finalizado. No RecReview, aprovar é a aprovação final e manda o e-mail de entrega com o link de download.






