Num vídeo de depoimentos, quase sempre sobra fala. Quatro entrevistados de 45 minutos cada dão três horas de bruto para um filme de dois minutos, que a 140 palavras por minuto comporta umas 280 palavras.
Quem procura essas palavras direto na timeline passa o dia arrastando o cursor, e o diretor ainda pergunta pela fala do primeiro forno. A decupagem faz essa busca no papel.
Em resumo
- O roteiro de edição é a entrevista decupada e posta na ordem do filme, linha a linha com minutagem, antes de abrir a timeline.
- Leia todas as transcrições uma vez sem marcar, marque as falas na segunda leitura e depois monte a ordem.
- Ouça cada sonora escolhida, porque a transcrição esconde como a fala soa.
- Aprove a estrutura no papel antes de alguém montar imagem.
- Marque cada emenda e escreva a cobertura ao lado de cada linha.
O que é decupagem de entrevista
Decupagem também é o nome da divisão do roteiro em planos, a decupagem técnica, mas este texto trata da decupagem de entrevista.
Decupar uma entrevista é ler ou assistir o bruto inteiro e anotar as falas que prestam, cada uma com o arquivo e a minutagem. Quando essas sonoras vão para a ordem do filme, a decupagem vira o roteiro de edição, o que em inglês se chama paper edit.
Cada linha traz quem fala, o arquivo, a entrada, a saída e o texto, e ao lado vai a cobertura, a imagem que entra por cima. Lido de cima para baixo, o documento é o áudio do filme na ordem.
O hábito vem do telejornalismo e do documentário e serve igual para depoimento de cliente, case, história do fundador e minidoc institucional.
Num vídeo roteirizado, o roteiro decide o que as pessoas falam. Num vídeo de entrevista, ninguém sabe qual é a história até alguém ler o que foi dito, e é no roteiro de edição que ela se decide.
Algumas linhas do filme institucional de uma rede de padarias:
01 · ENT_Marta_02 · 12:04-12:19 · “Minha mãe abriu a primeira loja com um forno e um empréstimo do meu tio.”
Cobertura: fotos de arquivo da primeira loja
02 · ENT_Joao_01 · 03:37-03:48 · “Entrei aqui para lavar assadeira. Onze anos depois, eu cuido do turno da manhã.”
Cobertura: João nos fornos, de madrugada
03 · ENT_Marta_02 · 27:51-28:02 · “A gente nunca quis ser a maior. Queria que o pão fosse igual em todas as lojas.”
No papel, subir a linha 03 para o começo leva um segundo. Na timeline, é refazer a cobertura e a trilha em volta das duas falas.
Como fazer a decupagem, passo a passo
Comece com a transcrição de todas as entrevistas, conferida com o áudio pelo menos nos nomes e números, que é assunto do post sobre como transcrever um vídeo.
Leia tudo uma vez, do começo ao fim, sem marcar nada. A primeira leitura mostra qual é a história. Quem marca desde a primeira página pega a primeira versão razoável de cada ideia, e muita gente diz a mesma coisa melhor lá pelo minuto quarenta, já relaxada.
Na segunda leitura, marque as melhores falas. Anote o arquivo, a entrada e a saída de cada uma e dê uma etiqueta com a parte da história que ela serve, como origem, problema, virada ou resultado.
Separe mais do que vai usar, para poder mudar de ideia depois sem voltar às três horas de bruto.
Depois monte a ordem. Copie as sonoras para um documento, agrupe pelas etiquetas e organize do jeito que a história pede.
Vá contando as palavras. Um filme de dois minutos não aguenta 600 palavras de entrevista, e cortar um parágrafo agora é bem mais rápido do que enxugar uma sequência depois.
Em seguida, confira se aquilo funciona como fala. A transcrição arruma a conversa e esconde a pausa antes da resposta e a entonação que sobe porque a pessoa não terminou o raciocínio.
Ouça cada sonora escolhida. Melhor ainda, monte as sonoras na timeline na ordem do roteiro, só o áudio, e escute sem olhar a imagem, que é onde a maioria das emendas ruins aparece.
Agora mande o roteiro de edição para aprovar a estrutura. O diretor, o cliente ou os dois leem e aprovam a ordem e as falas antes de alguém gastar um dia montando imagem.
Diga que a aprovação é da história e do que cada pessoa fala, e que imagem e trilha ficam para o corte. Se o cliente quiser tirar a parte do tio, você apaga uma linha e devolve na mesma tarde.
Só então edite. O primeiro corte segue o roteiro de edição linha a linha, e é na revisão do primeiro corte que as imagens são avaliadas.
Avise na mensagem que a estrutura ainda pode mudar até travar o corte, para ninguém tomar o sim no papel como aprovação final.
A fala que lê bem e soa mal
A surpresa mais comum no primeiro corte é a fala perfeita no documento que não funciona na tela. O entrevistado engole a última palavra, ou passa um caminhão bem no meio da frase.
Às vezes o problema está na imagem, como um olhar que foge da câmera no meio da frase. Nada disso aparece na transcrição, então assista a cada sonora na hora de marcar e anote o que pode derrubá-la.
Frankenbite: quando a emenda muda o sentido
Frankenbite é o nome que editores americanos dão à frase montada com pedaços de frases diferentes, às vezes de respostas diferentes. Tirar um começo recomeçado ou juntar duas frases sobre o mesmo assunto é edição normal e não muda o sentido.
O problema começa quando a emenda diz algo que a pessoa não disse. Metade de uma resposta sobre o sistema antigo com metade de outra sobre o novo cria uma afirmação que ninguém fez.
Em depoimento publicitário, além da ética, tem a regulação. Nos Estados Unidos, as regras da FTC para testemunhais (16 CFR 255.1) proíbem reescrever ou tirar o depoimento de contexto de um jeito que distorça a opinião ou a experiência de quem fala.
Aqui, o código do CONAR tem um anexo só para testemunhais, o Anexo Q.
Um teste resolve quase todos os casos. Se a pessoa assistisse ao corte, reconheceria o que falou? Marque cada emenda no roteiro de edição, com as duas minutagens, para quem aprova ver onde as falas foram juntadas.
A cobertura também entra no papel
Todo corte no meio de uma resposta pede uma imagem por cima, a não ser que o jump cut seja o estilo do filme, e a sonora que cita alguma coisa, como a primeira loja, faz o público esperar vê-la.
Escreva a cobertura ao lado de cada linha, como no exemplo, e confira com o que foi gravado. Se não existe foto da primeira loja, descubra com a estrutura ainda no papel. O que faltar vira pedido de arquivo ao cliente ou meia diária extra.
Como isso funciona no RecReview
O RecReview não monta o roteiro de edição, que continua no seu editor de texto. O app ajuda a achar e marcar as falas.
Suba cada entrevista como um vídeo. Com a transcrição pronta, a aba Transcrição mostra o texto em parágrafos, cada um com o horário e, quando dá para separar as vozes, um rótulo de quem fala.
Cada palavra tem o seu horário, e clicar nela leva o player até lá. A busca dentro da aba deixa só os parágrafos que têm a palavra, já com as correções feitas à mão.
Para descobrir em qual entrevista está uma fala, a busca geral do app (Cmd+K, ou Ctrl+K no Windows) também procura nas transcrições e abre o vídeo em que alguém disse aquilo. Ela lê a transcrição como foi gerada, então procure um nome corrigido pela grafia original.
Para marcar uma sonora, aperte I no começo e O no fim, ou clique em Marcar trecho na caixa de comentário, que marca cinco segundos a partir do frame atual e deixa você arrastar as bordas na timeline. Na lista, o comentário mostra o começo e o fim do trecho.
Shift+L toca o trecho em loop, para ouvir a fala algumas vezes antes de passá-la para o papel. Quem comenta pelo link de revisão também faz isso, inclusive um diretor de fora da equipe.
Para o documento, a transcrição exporta em TXT, um parágrafo por bloco com o horário no começo, num arquivo com o nome do vídeo que você subiu. O JSON traz o tempo de cada palavra.
Os comentários vão para o Premiere ou o DaVinci Resolve como marcadores. No XML exportado da página de revisão, o trecho chega como um marcador de um frame só, no ponto de entrada. Já o painel do Premiere, nos planos Pro e Studio, mantém a duração.
O post sobre comentários como marcadores no Premiere mostra os dois caminhos.





