Blog · Pós-produção

Padrões de nível de áudio para vídeo: em quanto mixar

-23 LKFS na TV brasileira e europeia, -24 nos EUA, perto de -14 no YouTube. O que LUFS e true peak medem, o alvo de cada destino e como conferir a mixagem antes de o arquivo sair.

Samuel Silva23 de setembro de 2026 · 7 min de leitura
Player de revisão com os apontamentos do AI Review marcados em vermelho na barra de tempo
Pedidos da versão anterior conferidos pelo AI Review, entre eles o aplauso alto demais marcado como feito

“Dá para aumentar o volume? Ficou baixo perto dos nossos outros vídeos.” Esse pedido costuma chegar depois que o cliente assistiu ao corte no YouTube, logo depois de um clipe de música. A mixagem estava certa. Só que foi feita para outro destino.

Volume deixou de ser questão de gosto faz tempo. Emissora e plataforma de streaming medem o loudness como um número, e ou devolvem o arquivo, ou mexem no volume dele para caber no alvo delas.

O que derruba a equipe é que cada destino usa um número diferente, e uma mixagem só não acerta todos.

Em resumo

  • Loudness se mede em LUFS (ou LKFS) sobre o programa inteiro, e o true peak, em dBTP, pega picos que o medidor comum não vê.
  • A TV no Brasil e na Europa pede -23, a americana -24, e a Netflix -27 medidos só nos diálogos.
  • O YouTube não publica alvo, mas as medições apontam referência perto de -14 LUFS, e ele abaixa vídeo alto sem subir vídeo baixo.
  • Faça um master por destino em vez de uma mixagem que mais ou menos serve para tudo.
  • Meça o arquivo exportado inteiro antes de mandar e escreva os números no e-mail de entrega.

O que LUFS e true peak medem

LUFS mede o quanto o programa soa alto, na média da duração inteira. O método vem da recomendação ITU-R BS.1770, que pesa as frequências mais ou menos como o ouvido e deixa os trechos quase em silêncio fora da conta. LKFS, o nome que aparece na norma brasileira e na americana, é a mesma unidade.

O medidor de pico mostra só a amostra mais alta. Uma mixagem muito comprimida pode ficar o tempo todo logo abaixo de 0 dBFS e soar bem mais alta que uma mixagem com dinâmica e os mesmos picos.

O medidor de loudness mostra mais dois números:

  • True peak (dBTP) estima o pico entre as amostras, que é onde a onda vai parar depois da conversão e da compressão com perda. Um arquivo que nunca encosta em 0 no medidor de amostra ainda pode clipar quando a plataforma recodifica.
  • Faixa de loudness (LU) mostra a distância entre as partes baixas e as altas. As normas usam mais como referência do que como passa ou não passa.

TV e Netflix: os números que fazem o arquivo voltar

Norma de emissora é regra, e arquivo fora dela volta. Estas são as que uma produtora mais encontra:

Destino Alvo True peak
TV no Brasil (Portaria 354/2012) -23 LKFS ±2 conforme a emissora
TV na Europa (EBU R 128) -23 LUFS -1 dBTP
TV nos EUA (ATSC A/85) -24 LKFS -2 dBTP
Netflix -27 LKFS nos diálogos -2 dBTP

No Brasil, a Portaria 354, de 2012, pede programação e intervalo centrados em -23 LKFS, com tolerância de 2 para cada lado e faixa de loudness de até 15 LU. Ela nasceu para acabar com o comercial mais alto que a novela.

A EBU R 128 fixa -23,0 LUFS para a mixagem inteira. A versão atual (5.0, de novembro de 2023) só aceita ±1 LU quando chegar no alvo não é viável, como em programa ao vivo.

A ATSC A/85, dos Estados Unidos, recomenda -24 LKFS e mede o diálogo nos programas longos. A Netflix pede -27 LKFS ±2 LU, medidos só onde tem diálogo, com picos em geral abaixo de -2 dBTP. É mais baixo que a TV de propósito, para a fala ficar num nível confortável e a trilha e os efeitos terem espaço acima dela.

Se o vídeo vai para emissora ou plataforma com regra de entrega, peça a ficha técnica. Ela vale mais que qualquer tabela.

YouTube, Instagram e a internet: quem abaixa o seu volume

A maioria das plataformas online aceita qualquer nível e muda o volume na hora de tocar. A mixagem alta é abaixada e toca, esmagada, no mesmo nível das outras.

Os números abaixo foram conferidos em outubro de 2026, e as plataformas mudam sem muito aviso:

  • O Spotify documenta -14 LUFS como padrão, medido pela BS.1770. É serviço de música, mas é a referência mais bem documentada entre os grandes.
  • O YouTube não publica número. O engenheiro de masterização Ian Shepherd mediu a referência dele mudando para -14 LUFS em setembro de 2019, e notou que o YouTube abaixa o vídeo alto mas não sobe o vídeo baixo.
  • Instagram e TikTok não publicam alvo de loudness para upload.
  • O suplemento de streaming da EBU (R 128 s2, de 2023) deixa a emissora subir a versão online para algo entre -20 e -16 LUFS.

Para um institucional que vai morar no YouTube, no LinkedIn e no site do cliente, mixar entre -14 e -16 LUFS com true peak abaixo de -1 dBTP é o costume. Bem mais baixo que isso, o vídeo soa fraco perto do anterior, porque ninguém vai subir o volume por você.

Um master para cada destino

A mixagem de TV e a mixagem de internet são dois arquivos. Subir 9 dB num master de -23 para chegar a -14 é empurrar o som com força no limiter, e a versão de internet exibida na TV sai esmagada e alta demais.

O que funciona na maioria dos trabalhos:

  1. Pergunte onde o vídeo vai passar antes de começar a mixagem. “Site e LinkedIn” e “comercial na TV em dois estados” pedem sessões diferentes, e a resposta entra na lista de entregáveis.
  2. Mixe primeiro o destino mais exigente. Em geral é a versão de TV, que tem regra dura e mais dinâmica.
  3. Faça a versão de internet numa passada de master própria, a partir das stems se você tiver, em vez de aumentar o arquivo da TV.
  4. Nomeie os arquivos pelo destino, para ninguém subir o master de -23 no YouTube por engano.

Como conferir o nível antes de enviar

Meça o arquivo exportado, não a timeline. Um plugin ou uma configuração de render mudam o resultado entre a sessão e o arquivo.

  1. Passe o arquivo inteiro num medidor BS.1770, do primeiro ao último frame. Loudness integrado só faz sentido na duração toda.
  2. Leia o true peak, não o pico de amostra. No Premiere Pro, as configurações de exportação têm a opção Loudness Normalization, com EBU R128, ATSC A/85 e um alvo BS.1770 personalizado, limitador de true peak e relatório de loudness opcional.
  3. Ouça uma vez no alto-falante do celular e uma vez no fone. Fala enterrada na trilha é a reclamação que vai chegar, e nenhum medidor avisa.
  4. Escreva os números medidos no e-mail de entrega. “Master web, -14,2 LUFS, -1,3 dBTP” responde à agência do cliente antes de ela perguntar. Nosso modelo de e-mail de entrega tem espaço para isso.

A conferência de áudio entra na mesma passada do resto do checklist de QC final, e o post sobre erros comuns de edição cobre clipagem e saltos de nível dentro da mixagem.

Como isso funciona no RecReview

No RecReview, o AI Review roda numa versão quando você pede, ou em todo upload, se o AI Review automático estiver ligado nas configurações do workspace.

Ele mede o loudness integrado e o true peak do arquivo inteiro, e o apontamento mostra o número medido. Ele marca true peak acima de -0,5 dBTP e loudness acima de -11 ou abaixo de -22 LUFS, tomando como referência a entrega web, perto de -14 LUFS. Um master de TV em -23 aparece como baixo, o que é esperado para aquele arquivo.

Ele também aponta problemas em momentos específicos: trechos de áudio clipado, buracos de silêncio digital no meio da fala, estalos isolados e silêncios de mais de cinco segundos longe dos segundos de abertura e de fechamento. Cada um vem com timecode e fica na barra do player, junto dos comentários.

Quando o cliente escreve “a trilha está alta aqui” numa versão, o AI Review mede aquele trecho nas duas versões na rodada seguinte e marca o pedido como feito quando o nível desceu.

Ele não confere a configuração de canais nem o loudness do diálogo, e não certifica norma de emissora. Quem assina a mixagem continua sendo o seu medidor. O AI Review existe para pegar o export de internet baixo demais, alto demais ou clipando antes de o cliente dar o play.

O AI Review mede o loudness de cada versão.

O AI Review mede o loudness e o true peak do arquivo inteiro e aponta clipagem, buracos no áudio e silêncios longos, cada um com timecode.

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Janela de upload com a tarefa detectada e a chave do AI Review

Perguntas frequentes

Em quantos LUFS mixar um vídeo para o YouTube?

O YouTube não publica um alvo. Medições de engenheiros de masterização colocam a referência dele perto de -14 LUFS desde 2019, e ele abaixa o vídeo alto sem subir o vídeo baixo. Para vídeo institucional e de rede social, o costume é mixar entre -14 e -16 LUFS integrados, com true peak abaixo de -1 dBTP.

Qual é o padrão de loudness da TV no Brasil?

A Portaria 354, de 2012, do então Ministério das Comunicações, pede programação e intervalo comercial centrados em -23 LKFS, com tolerância de 2 para mais ou para menos, medidos pelo método ITU-R BS.1770. Para entrega em emissora, vale sempre a ficha técnica que ela manda.

LUFS e LKFS são a mesma coisa?

São. Os dois medem loudness pelo método ITU-R BS.1770. LKFS é o nome usado pela ITU e pelos documentos americanos e brasileiros, e LUFS é o nome da EBU. Um arquivo em -23 LKFS lê -23 LUFS em qualquer medidor que siga a norma.

Por que meu vídeo soa baixo no YouTube se o pico bate em 0 dB?

Pico e loudness são medidas diferentes. Uma mixagem com dinâmica pode encostar em 0 dBFS em poucos momentos e ainda ter média bem abaixo dos outros vídeos. O YouTube não sobe o volume dela, então ela toca mais baixa que o vídeo anterior. Confira o loudness integrado do arquivo inteiro, não o medidor de pico.

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