“Dá para aumentar o volume? Ficou baixo perto dos nossos outros vídeos.” Esse pedido costuma chegar depois que o cliente assistiu ao corte no YouTube, logo depois de um clipe de música. A mixagem estava certa. Só que foi feita para outro destino.
Volume deixou de ser questão de gosto faz tempo. Emissora e plataforma de streaming medem o loudness como um número, e ou devolvem o arquivo, ou mexem no volume dele para caber no alvo delas.
O que derruba a equipe é que cada destino usa um número diferente, e uma mixagem só não acerta todos.
Em resumo
- Loudness se mede em LUFS (ou LKFS) sobre o programa inteiro, e o true peak, em dBTP, pega picos que o medidor comum não vê.
- A TV no Brasil e na Europa pede -23, a americana -24, e a Netflix -27 medidos só nos diálogos.
- O YouTube não publica alvo, mas as medições apontam referência perto de -14 LUFS, e ele abaixa vídeo alto sem subir vídeo baixo.
- Faça um master por destino em vez de uma mixagem que mais ou menos serve para tudo.
- Meça o arquivo exportado inteiro antes de mandar e escreva os números no e-mail de entrega.
O que LUFS e true peak medem
LUFS mede o quanto o programa soa alto, na média da duração inteira. O método vem da recomendação ITU-R BS.1770, que pesa as frequências mais ou menos como o ouvido e deixa os trechos quase em silêncio fora da conta. LKFS, o nome que aparece na norma brasileira e na americana, é a mesma unidade.
O medidor de pico mostra só a amostra mais alta. Uma mixagem muito comprimida pode ficar o tempo todo logo abaixo de 0 dBFS e soar bem mais alta que uma mixagem com dinâmica e os mesmos picos.
O medidor de loudness mostra mais dois números:
- True peak (dBTP) estima o pico entre as amostras, que é onde a onda vai parar depois da conversão e da compressão com perda. Um arquivo que nunca encosta em 0 no medidor de amostra ainda pode clipar quando a plataforma recodifica.
- Faixa de loudness (LU) mostra a distância entre as partes baixas e as altas. As normas usam mais como referência do que como passa ou não passa.
TV e Netflix: os números que fazem o arquivo voltar
Norma de emissora é regra, e arquivo fora dela volta. Estas são as que uma produtora mais encontra:
| Destino | Alvo | True peak |
|---|---|---|
| TV no Brasil (Portaria 354/2012) | -23 LKFS ±2 | conforme a emissora |
| TV na Europa (EBU R 128) | -23 LUFS | -1 dBTP |
| TV nos EUA (ATSC A/85) | -24 LKFS | -2 dBTP |
| Netflix | -27 LKFS nos diálogos | -2 dBTP |
No Brasil, a Portaria 354, de 2012, pede programação e intervalo centrados em -23 LKFS, com tolerância de 2 para cada lado e faixa de loudness de até 15 LU. Ela nasceu para acabar com o comercial mais alto que a novela.
A EBU R 128 fixa -23,0 LUFS para a mixagem inteira. A versão atual (5.0, de novembro de 2023) só aceita ±1 LU quando chegar no alvo não é viável, como em programa ao vivo.
A ATSC A/85, dos Estados Unidos, recomenda -24 LKFS e mede o diálogo nos programas longos. A Netflix pede -27 LKFS ±2 LU, medidos só onde tem diálogo, com picos em geral abaixo de -2 dBTP. É mais baixo que a TV de propósito, para a fala ficar num nível confortável e a trilha e os efeitos terem espaço acima dela.
Se o vídeo vai para emissora ou plataforma com regra de entrega, peça a ficha técnica. Ela vale mais que qualquer tabela.
YouTube, Instagram e a internet: quem abaixa o seu volume
A maioria das plataformas online aceita qualquer nível e muda o volume na hora de tocar. A mixagem alta é abaixada e toca, esmagada, no mesmo nível das outras.
Os números abaixo foram conferidos em outubro de 2026, e as plataformas mudam sem muito aviso:
- O Spotify documenta -14 LUFS como padrão, medido pela BS.1770. É serviço de música, mas é a referência mais bem documentada entre os grandes.
- O YouTube não publica número. O engenheiro de masterização Ian Shepherd mediu a referência dele mudando para -14 LUFS em setembro de 2019, e notou que o YouTube abaixa o vídeo alto mas não sobe o vídeo baixo.
- Instagram e TikTok não publicam alvo de loudness para upload.
- O suplemento de streaming da EBU (R 128 s2, de 2023) deixa a emissora subir a versão online para algo entre -20 e -16 LUFS.
Para um institucional que vai morar no YouTube, no LinkedIn e no site do cliente, mixar entre -14 e -16 LUFS com true peak abaixo de -1 dBTP é o costume. Bem mais baixo que isso, o vídeo soa fraco perto do anterior, porque ninguém vai subir o volume por você.
Um master para cada destino
A mixagem de TV e a mixagem de internet são dois arquivos. Subir 9 dB num master de -23 para chegar a -14 é empurrar o som com força no limiter, e a versão de internet exibida na TV sai esmagada e alta demais.
O que funciona na maioria dos trabalhos:
- Pergunte onde o vídeo vai passar antes de começar a mixagem. “Site e LinkedIn” e “comercial na TV em dois estados” pedem sessões diferentes, e a resposta entra na lista de entregáveis.
- Mixe primeiro o destino mais exigente. Em geral é a versão de TV, que tem regra dura e mais dinâmica.
- Faça a versão de internet numa passada de master própria, a partir das stems se você tiver, em vez de aumentar o arquivo da TV.
- Nomeie os arquivos pelo destino, para ninguém subir o master de -23 no YouTube por engano.
Como conferir o nível antes de enviar
Meça o arquivo exportado, não a timeline. Um plugin ou uma configuração de render mudam o resultado entre a sessão e o arquivo.
- Passe o arquivo inteiro num medidor BS.1770, do primeiro ao último frame. Loudness integrado só faz sentido na duração toda.
- Leia o true peak, não o pico de amostra. No Premiere Pro, as configurações de exportação têm a opção Loudness Normalization, com EBU R128, ATSC A/85 e um alvo BS.1770 personalizado, limitador de true peak e relatório de loudness opcional.
- Ouça uma vez no alto-falante do celular e uma vez no fone. Fala enterrada na trilha é a reclamação que vai chegar, e nenhum medidor avisa.
- Escreva os números medidos no e-mail de entrega. “Master web, -14,2 LUFS, -1,3 dBTP” responde à agência do cliente antes de ela perguntar. Nosso modelo de e-mail de entrega tem espaço para isso.
A conferência de áudio entra na mesma passada do resto do checklist de QC final, e o post sobre erros comuns de edição cobre clipagem e saltos de nível dentro da mixagem.
Como isso funciona no RecReview
No RecReview, o AI Review roda numa versão quando você pede, ou em todo upload, se o AI Review automático estiver ligado nas configurações do workspace.
Ele mede o loudness integrado e o true peak do arquivo inteiro, e o apontamento mostra o número medido. Ele marca true peak acima de -0,5 dBTP e loudness acima de -11 ou abaixo de -22 LUFS, tomando como referência a entrega web, perto de -14 LUFS. Um master de TV em -23 aparece como baixo, o que é esperado para aquele arquivo.
Ele também aponta problemas em momentos específicos: trechos de áudio clipado, buracos de silêncio digital no meio da fala, estalos isolados e silêncios de mais de cinco segundos longe dos segundos de abertura e de fechamento. Cada um vem com timecode e fica na barra do player, junto dos comentários.
Quando o cliente escreve “a trilha está alta aqui” numa versão, o AI Review mede aquele trecho nas duas versões na rodada seguinte e marca o pedido como feito quando o nível desceu.
Ele não confere a configuração de canais nem o loudness do diálogo, e não certifica norma de emissora. Quem assina a mixagem continua sendo o seu medidor. O AI Review existe para pegar o export de internet baixo demais, alto demais ou clipando antes de o cliente dar o play.





