Na ilha de edição a cor estava certa. Aí chegam os comentários. A gerente de marketing assistiu no notebook e achou a entrevista escura.
O diretor abriu o link no celular, tarde da noite, e quer saber por que todo mundo está alaranjado. Os dois contam o que viram, cada um na sua tela.
A cor é a única parte da revisão em que a tela do cliente dá palpite. Não tem como calibrar o notebook dele, mas dá para controlar o seu lado e pedir comentários que façam sentido mesmo numa tela ruim.
Em resumo
- O monitor de cor trabalha num padrão conhecido, enquanto notebook, celular e player mexem na imagem cada um do seu jeito.
- Faça a cor num monitor calibrado e tenha um aparelho de referência com True Tone, Night Shift e Brilho Automático desligados.
- Um comentário de cor que serve diz onde, o quê, para que lado e comparado com o quê.
- Combine um frame de referência antes e compare as versões em vez de confiar na memória.
- Faça a cor depois do picture lock e pare de mandar versão quando os comentários andam em círculo.
Por que a cor do vídeo muda em cada tela
O monitor de cor trabalha num padrão conhecido. O notebook do cliente nunca foi medido, fica do lado da janela e está no brilho que sobrou de ontem.
As diretrizes de masterização da Netflix definem o monitor de referência SDR como Rec.709, gama BT.1886 (2,4) e branco de 100 nits, e o guia de revisão remota recomenda sala com pouca luz, em temperatura neutra de 6500K.
Celulares
O celular também mexe na imagem por conta própria. No iPhone e no iPad, a Apple explica que o True Tone vem ligado e ajusta a cor e a intensidade da tela à luz do ambiente, e que o Brilho Automático, também ligado de fábrica, aumenta o brilho em lugar claro.
O Night Shift, quando ligado, puxa as cores para o lado mais quente, então comentário sobre pele laranja mandado às 23h merece uma pergunta sobre ele.
Nos Samsung, o modo de tela Vívido, segundo a própria Samsung, otimiza a gama de cores, a saturação e a nitidez.
Players
Os players também discordam entre si. O arquivo leva etiquetas que dizem qual padrão de cor ele segue, e cada player lê essas etiquetas do seu jeito, então o mesmo export pode aparecer diferente no QuickTime Player e no programa de cor.
No Mac essa dor de cabeça é antiga, e a Blackmagic criou a opção Rec.709-A no DaVinci Resolve 16.2.2 para compatibilidade com o QuickTime Player. O navegador é mais um player nessa lista.
A cópia de revisão
Depois vem a cópia de revisão. O guia de revisão remota da Netflix lembra que a maioria das plataformas de revisão usa H.264 de 8 bits, que pode criar banding e pôr a cor em dúvida. Ele também aceita HD para decidir cor, então um arquivo 1080p dá conta.
HDR
Por último, o HDR. Nos iPhones compatíveis, a câmera grava em Dolby Vision HDR a não ser que alguém desligue o Vídeo HDR, e o realce do HDR vai muito além do branco do SDR (o Modo de Referência da Apple mostra até 1.000 nits em HDR e 100 em SDR).
Ao lado dos vídeos HDR que o cliente gravou no próprio celular, uma entrega SDR parece apagada. Combine o formato de entrega na proposta e essa comparação deixa de virar comentário de cor.
O que controlar do seu lado
Faça a cor num monitor calibrado, numa sala que você controla, e anote os valores para o colorista freelancer usar o mesmo padrão.
Tenha um aparelho de referência para ver o que o cliente vê: um celular ou tablet da produtora com True Tone, Night Shift e Brilho Automático desligados e o brilho num nível fixo.
Nos iPad Pro compatíveis, o Modo de Referência faz isso sozinho: mira o branco D65, mostra vídeo SDR com até 100 nits e desliga esses três ajustes.
Exporte a cópia de revisão do jeito que vai entregar. Num trabalho SDR, é Rec.709 com as etiquetas de cor batendo (o MediaInfo mostra as etiquetas, se quiser conferir). Use H.264, que toca em qualquer navegador.
Depois assista ao arquivo exportado, no QuickTime, num navegador e no aparelho de referência. Se algum deles discordar do seu monitor, você descobre antes do e-mail do cliente.
Se a entrega é para TV, confira os níveis no waveform antes de qualquer revisão. A Rec.709 põe o preto em 16 e o branco em 235 numa escala de 8 bits, e a especificação de entrega da emissora diz quanto a imagem pode passar disso. Cor que estoura ali volta do controle de qualidade do canal, por mais que o cliente tenha gostado.
Como pedir comentário de cor que o colorista consiga usar
Um comentário de cor que serve diz onde, o quê, para que lado e comparado com o quê. “Tá escuro” diz que alguma coisa incomodou e nada sobre o que mudar.
A comparação é o que mais pesa. “Tá laranja” depende da tela. “Mais quente que a abertura” vale em qualquer tela, porque os dois planos passaram pela mesma.
| Comentário vago | Comentário que serve |
|---|---|
| Tá escuro | 0:42, não dá para ver os olhos dela. Clareie o rosto e mantenha o fundo escuro. |
| Todo mundo laranja | De 1:10 a 1:25 a pele está mais quente que na abertura. Iguale à abertura. |
| Deixa a cor mais viva | 0:20, a caixa tem que ficar no azul da marca (referência anexa). |
| Tá frio | As cenas do escritório estão mais frias que o resto. Aproxime da cena do café. |
Peça para o cliente dizer em que tela assistiu: “no celular, de noite” muda a leitura do comentário. O guia de feedback de vídeo cobre o resto, como um assunto por comentário e timecode em cada um.
Combine um frame de referência antes
Antes de tudo, escolha um frame para os dois lados olharem, de preferência com um rosto e o produto no mesmo plano. Faça uma pergunta só: a pele parece certa na sua tela?
Se o cliente vê laranja e o seu aparelho de referência mostra pele neutra, o problema está na tela dele, e vale dizer isso com jeito antes de mexer na cor.
Para cor de marca, peça os valores do manual ou uma imagem já aprovada e acerte o plano do produto por ela.
Um círculo desenhado no frame resolve de qual objeto o comentário fala (como anotar um vídeo tem mais sobre isso).
Compare as versões da cor em vez de confiar na memória
Quando a v3 chega, ninguém lembra o tom de pele da v2, então toque as duas juntas (comparar duas versões explica cada modo). Lado a lado mostra o visual geral, e uma linha de divisão arrastada sobre o rosto mostra a mudança na pele.
A visão de diferença deixa preto o que ficou igual: uma cor refeita acende o quadro inteiro, e o ajuste num plano deveria acender só aquele plano. Se outros planos acenderem, o ajuste vazou.
Quando parar de mexer na cor
Faça a cor depois do picture lock. Um corte mexido depois da cor pode jogar na timeline um plano sem tratamento, um dos erros que o cliente percebe primeiro. Ponha na proposta quantas rodadas de cor estão incluídas, como você faz com as de edição.
Vocês estão andando em círculo quando:
- Um comentário desfaz o anterior (mais quente, mais frio, mais quente de novo).
- Duas pessoas discordam porque viram em telas diferentes.
- O comentário fala do aparelho e não da imagem.
Nessa hora, pare de mandar versão: olhem a cor juntos numa tela só, na sua ilha ou no tablet de referência, e aprovem ali o frame.
Daí em diante, plano que não bate com o vizinho é correção, e “queria mais frio” num visual já aprovado é rodada nova.
Como isso funciona no RecReview
No RecReview, o player abre em Auto, a cópia de streaming adaptativo, que é recodificada e pode baixar a resolução numa conexão lenta. O menu de qualidade (Q no teclado, ou o menu Configurações no celular) tem também o Original, o arquivo que você subiu, tocado sem essa recodificação.
O cliente vê o mesmo menu: numa rodada de cor, peça que ele troque para Original antes de comentar.
Suba a cópia de revisão em H.264: se o navegador não toca o codec (ProRes, ou HEVC no Chrome), o Original volta para a cópia de streaming.
Cada cor refeita que você sobe na tarefa vira a próxima versão numerada. O Comparar toca duas versões sincronizadas, lado a lado, em divisão ou sobrepostas, e a sobreposição tem a chave Diferença, que deixa preto o pixel que não mudou.
A comparação não tem menu de qualidade e toca as cópias de streaming, então use para ver para que lado a cor andou e decida o frame final no Original. O cliente também compara quando a versão anterior foi compartilhada com ele ou o link mostra o histórico de versões.
No comentário, o cliente pausa, clica em Desenhar e circula o rosto (caneta, seta, retângulo ou círculo). Para um trecho, I e O no teclado marcam o começo e o fim, e o comentário cobre esse intervalo.
A referência da marca pode ir anexada ao comentário. O resto está em controle de versões.





