“Em quantos quadros a gente grava?” A resposta costuma ser o que estava na câmera na última diária, e quase sempre dá certo. O problema aparece semanas depois, na ilha ou na entrega.
Um plano em câmera lenta toca na velocidade normal, uma panorâmica trepida no arquivo final, o cliente comenta num frame 27 que não existe na timeline do editor, ou a emissora devolve o comercial porque ele saiu em 25 fps e a ficha pedia 29,97.
Quase tudo isso se evita com pouca teoria. Escolha a taxa de quadros da entrega antes da gravação e mantenha essa taxa até o arquivo que o cliente aprova.
Em resumo
- Escolha a taxa de quadros da entrega antes da gravação e mantenha essa taxa até o arquivo que o cliente aprova.
- A TV no Brasil, de 60 Hz, trabalha em 29,97 e 59,94, e na maior parte da Europa, de 50 Hz, em 25 e 50.
- Para câmera lenta, grave a 59,94 ou 119,88 e interprete o clipe na taxa da timeline.
- Crie a sequência na taxa da entrega antes do primeiro corte, para o primeiro clipe não decidir por você.
- Exporte a cópia de revisão na taxa do arquivo que você vai entregar.
O que a taxa de quadros muda na tela
Taxa de quadros, ou frame rate, é quantas imagens paradas cabem em um segundo de vídeo. A 24 fps cada imagem fica uns 42 milissegundos na tela, a 30 fps fica 33 e a 60 fps, uns 17.
A diferença aparece no movimento. Com o obturador na regulagem de costume:
- 24 fps tem mais desfoque de movimento em cada quadro e uma cadência leve que quase todo mundo associa a cinema.
- 30 fica um pouco mais fluido, mais perto de TV e de transmissão ao vivo.
- 50 e 60 ficam bem fluidos, o que serve para esporte, jogo e gravação de tela, e é nessas taxas que se grava o plano que vai virar câmera lenta.
Numa entrevista em sala de reunião, ninguém na plateia vai saber se é 24 ou 30. A escolha pesa em movimento de câmera, ação rápida e gravação de tela e, mais que tudo, no que a ficha de entrega pede.
23,976, 29,97 e a divisão entre 50 e 60 Hz
A recomendação ITU-R BT.709, que define o vídeo em HD, prevê taxas de 24, 25, 30, 50 e 60 quadros e, para 24, 30 e 60, também esses valores divididos por 1,001. Daí saem 23,976, 29,97 e 59,94.
É herança da TV em cores dos países que usavam NTSC, e as câmeras desses mercados ainda gravam assim, às vezes com o 23,976 chamado de “24p” ou “23.98” no menu. Não existe versão fracionada de 25 nem de 50.
O lado em que você está segue, quase sempre, a frequência da rede elétrica. O Brasil adotou 60 Hz como padrão nacional por lei federal em 1964 (Lei 4.454), e a TV aqui trabalha na família do 60, em 29,97 e 59,94.
As fichas técnicas de entrega de comercial para as emissoras pedem 1920x1080 entrelaçado a 29,97 quadros. A Grã-Bretanha e a maior parte da Europa usam 50 Hz, e a TV de lá trabalha em 25 e 50.
29,97 e 59,94 costumam usar timecode drop frame (23,976 fica em non-drop), o que o nosso guia de como ler timecode explica.
E gravar a 25 fps sob LED ou fluorescente de escritório num país de 60 Hz, ou a 30 fps num de 50 Hz, é um jeito fácil de ganhar flicker. O guia de gravação de depoimento tem as velocidades de obturador que evitam isso.
Qual taxa usar em cada trabalho
| Trabalho | Gravar em | Entregar em |
|---|---|---|
| Entrevista ou depoimento | 29,97 ou 23,976 | Igual à gravação |
| Evento com momentos em câmera lenta | A taxa principal, e 59,94 ou 119,88 nos planos que vão ficar lentos | A taxa principal |
| Gravação de tela ou demonstração de software | 29,97 ou 59,94 | A taxa do projeto |
| Comercial para TV aberta | 29,97 | O que a ficha da emissora pedir, em geral 1080i a 29,97 |
| Projeto para cliente na Europa | 25, e 50 para câmera lenta | 25 |
As recomendações de upload do Google para o YouTube mandam codificar e subir na taxa em que o vídeo foi gravado. As taxas mais comuns da lista são 24, 25, 30, 48, 50 e 60, e o material entrelaçado deve ser desentrelaçado antes, então 1080i60 sobe como 1080p30.
Converter uma edição de 24 fps para 60 no upload não acrescenta movimento, porque os quadros a mais são cópias ou palpites.
Anote a taxa no briefing e na lista de entregáveis, ao lado da resolução e da proporção de cada arquivo. Se o cliente não falou, pergunte onde o vídeo vai passar. Rede social e site deixam a escolha com você, e TV vem com ficha técnica.
Câmera lenta: grave alto e interprete na taxa da timeline
Câmera lenta é gravar mais quadros do que você vai tocar. Um plano gravado a 59,94 e tocado a 23,976 fica a 40% da velocidade, e a 29,97 fica a 50%. Gravado a 119,88, dá 20% numa timeline a 23,976 e 25% numa a 29,97.
O jeito limpo é interpretar o clipe, dizendo ao programa de edição para tocar os quadros dele na taxa da timeline. No Premiere isso é o Interpret Footage, e no Resolve, o Clip Attributes do media pool. Cada quadro gravado vira um quadro da edição.
Desacelerar pela velocidade do clipe só dá o mesmo resultado na porcentagem exata. Fora dela, o programa pula, repete ou mistura quadros, e o movimento rápido denuncia.
O que dá errado quando as taxas se misturam
A sequência tem uma taxa só, e todo clipe que não bate com ela é convertido enquanto toca:
- Material a 25 fps numa timeline a 29,97 repete mais ou menos um quadro a cada cinco, trepidação que aparece em panorâmica e em gente andando.
- 29,97 numa timeline a 25 faz o contrário e descarta mais ou menos um quadro a cada seis.
- 24 numa timeline a 23,976 quase não aparece. O programa pula um quadro a cada 1.000, uns 42 segundos, o que pode virar um tranquinho numa panorâmica lenta. Se você interpretar o clipe, ele passa a tocar 0,1% mais devagar, e o áudio gravado à parte escorrega uns 3,6 segundos por hora.
- Vídeo de celular e gravação de tela costumam ter taxa variável, que dessincroniza em take longo, assunto da nossa lista de erros de edição que o cliente percebe.
Muitas vezes quem decide é o programa. O Final Cut define a taxa do projeto pelo primeiro clipe de vídeo que entra, e o New Sequence From Clip do Premiere faz o mesmo. Se esse primeiro clipe for o plano de câmera lenta a 60 ou um vídeo de celular, a edição inteira herda a taxa dele.
Crie a sequência na taxa da entrega antes do primeiro corte e converta os clipes diferentes de propósito, um por vez, olhando o resultado.
A cópia de revisão vai na taxa da entrega
O cliente aprova o arquivo que revisou, então ele precisa ter a taxa do que você vai entregar. Uma cópia exportada a 30 a partir de um master a 25 ganha uma trepidação que o master não tem, e o cliente pode pedir correção de algo que nem está no arquivo final.
O contrário é pior, porque uma cópia lisinha pode esconder um tranco que só existe no master. E os números de frame dos comentários só batem quando a cópia e a timeline contam na mesma taxa.
Exporte a cópia de revisão na taxa da sequência (o post da pasta monitorada do Media Encoder tem um preset que faz isso) e confira o número nas propriedades do arquivo antes de enviar. Os cortes vertical e quadrado saem do mesmo master e devem seguir a taxa dele.
Como isso funciona no RecReview
Quando você sobe uma versão, o RecReview lê a taxa de quadros do arquivo. Ela aparece ao lado da duração e da resolução no menu que abre quando você passa o mouse ou clica no título do vídeo, e fica fácil notar uma cópia que saiu na taxa errada antes de o cliente abrir.
O player de revisão conta nessa taxa. As setas andam um frame para trás ou para a frente, e o relógio pode mostrar timecode SMPTE ou minutos, segundos e frames, os dois contados na taxa do arquivo.
Quando você pausa, o player acerta o tempo com o frame que está na tela, e o comentário no frame cai na imagem que o cliente estava vendo. Para julgar o movimento no arquivo que você exportou, escolha Original no menu de qualidade, que toca o arquivo enviado e não a cópia de streaming.
No portal do cliente, a janela de download mostra a taxa de quadros junto com o tamanho, a duração e a resolução, para quem recebe o master conferir com a ficha antes de baixar.





