Quase todo vídeo de porta-voz que uma produtora grava acontece longe de estúdio. É numa sala de reunião do cliente, reservada das 9h ao meio-dia, com parede de vidro, um ar-condicionado cujo controle ninguém acha e um CEO que tem 40 minutos entre duas reuniões.
O equipamento precisa caber num carro e ainda ficar melhor que uma webcam.
Este é o mínimo que a gente levaria para essa sala. Como o apresentador lê o roteiro está no guia sobre ler no teleprompter com naturalidade, e o tablet com vidro tem um post só dele.
Em resumo
- Escolha o canto com mais profundidade atrás da pessoa e nunca a ponha de costas para a janela.
- Decida se a pessoa fala com a lente ou com um entrevistador, e mantenha um jeito por vídeo.
- Três painéis de LED, ou uma janela de lado e dois painéis, iluminam a maioria dos escritórios.
- Resolva o som primeiro, com lapela, um shotgun de reserva e a sala em silêncio.
- Ajuste a câmera no manual, com o obturador no dobro da taxa de quadros, e grave um segundo ângulo para a edição.
Escolha o canto pela profundidade
Dê uma volta pela sala antes de abrir as cases. Num escritório, o melhor fundo costuma ser a maior distância que cabe no quadro, na diagonal até um canto ou olhando para um corredor, com a pessoa bem longe da parede. Essa distância deixa o fundo desfocar e tira a sombra dela da parede.
Nunca ponha ninguém de costas para a janela. Ou a câmera expõe para o vidro e o rosto fica escuro, ou expõe para o rosto e a janela estoura.
Parede de vidro reflete as luzes e a equipe, então grave em ângulo com ela ou deixe o vidro atrás da câmera.
Tire de cena os cabos e o quadro branco com números meio apagados. Um abajur ou uma planta alguns passos atrás da pessoa dão profundidade.
Enquadramento, olhar e onde vai o teleprompter
Decida com quem a pessoa fala. No vídeo falando para a câmera, como a mensagem do CEO ou uma aula de curso, ela olha para a lente e fala com quem assiste.
No depoimento ou na entrevista, ela responde para alguém sentado ao lado da câmera, e o olhar passa rente à lente. Os dois funcionam, mas misturar no mesmo vídeo parece erro.
O que perguntar num depoimento de cliente está nas perguntas para vídeo depoimento.
Texto roteirizado para a câmera pede teleprompter na frente da lente, para o olhar ficar no vidro.
Na entrevista, sente o entrevistador com a cabeça colada à lente, na mesma altura, porque quanto mais perto dela o olhar passa, mais direta a resposta parece. Deixe o espaço livre do quadro do lado para onde a pessoa olha.
Câmera na altura dos olhos, porque lente olhando de baixo mostra queixo demais. Um primeiro plano, do meio do peito para cima, é um bom começo, com os olhos perto da linha do terço de cima e pouco respiro acima da cabeça.
Marque com fita no chão onde ficam os pés da cadeira, porque cadeira anda de um take para o outro.
Se a lista de entregáveis tem versões verticais, enquadre pensando nelas agora. O recorte 9:16 de um quadro 16:9 é uma faixa estreita no meio, onde a entrevista clássica, com a pessoa num dos lados, não cabe.
Três luzes, ou uma janela e duas
Três painéis de LED dão conta da maioria dos escritórios:
- A luz principal fica de um lado da câmera, mais ou menos a 45 graus da linha do nariz da pessoa e um pouco acima dos olhos, suavizada com difusor.
- O preenchimento vai do outro lado, mais fraco, ou um rebatedor branco faz esse papel.
- O contraluz fica atrás da pessoa, alto e de lado, e desenha uma borda fina no cabelo e nos ombros.
A janela pode ser a luz principal, desde que fique ao lado da pessoa, nunca atrás. Nuvem passa, então confira a exposição entre os takes.
Apague as luzes do teto se der. Elas iluminam de cima para baixo, o que afunda os olhos, e a cor quase nunca bate com a dos seus painéis.
Se ficarem acesas, ajuste os painéis para a cor delas e faça o balanço de branco no manual. Com óculos, suba a luz principal ou leve mais para o lado até o reflexo sair das lentes.
O som vem primeiro
Um plano levemente fora de foco passa muito antes de um zumbido embaixo da voz do CEO, então resolva o som antes de terminar a luz.
Use dois microfones. A lapela, presa no peito a cerca de um palmo da boca, dá a voz próxima e limpa. Escute se o paletó ou o colar raspam no microfone.
Um shotgun numa vara de boom ou num pedestal, logo acima do quadro e apontado para a boca, grava em outro canal como reserva. Se a lapela pegar o atrito da camisa no melhor take, o editor troca para o shotgun naqueles segundos.
Depois, silencie a sala. Desligue o ar-condicionado durante os takes e ligue de novo no intervalo. Tire o frigobar da tomada e ponha um aviso na porta.
Celular no modo avião, inclusive o do apresentador, porque o aparelho no bolso pode zumbir no microfone sem fio.
Fique de fone fechado a diária inteira e grave 30 segundos de som ambiente com todo mundo parado, para o editor cobrir os buracos.
Ajustes da câmera e o segundo ângulo
Exposição, balanço de branco e foco no manual. Siga a regra dos 180 graus, com o obturador no dobro da taxa de quadros (1/60 a 30 quadros, 1/50 a 25).
Luz de LED e fluorescente de escritório pode piscar na imagem quando o obturador não combina com a frequência da rede. No Brasil, onde a rede é de 60 Hz, use 1/60 ou 1/120, e a 24 quadros prefira 1/60 ao 1/50 da regra.
Abra o diafragma o bastante para desfocar o fundo e confira o foco no olho mais próximo, com zoom no monitor.
A segunda câmera se paga na edição. Com um ângulo só, cada tropeço e cada resposta encurtada vira um jump cut, aquele pulo no meio da frase. Com dois, o editor cobre o corte com a outra câmera.
Ponha a câmera B num plano mais fechado e a pelo menos 30 graus da A, a regra de sempre para o corte não pular. Iguale taxa de quadros, obturador, balanço de branco e perfil de imagem nas duas e sincronize por timecode ou por uma palma no começo de cada take.
Se o apresentador lê para a câmera A pelo teleprompter, a B mostra a pessoa lendo para outro lugar. Deixe a B fechada e use para cobrir cortes, não para parágrafos inteiros.
Checklist antes do REC
Antes do primeiro take e depois de cada intervalo:
- Celulares no modo avião, ar-condicionado desligado, aviso na porta.
- Teste de som no volume real do apresentador, ouvindo os dois canais atrás de atrito e zumbido.
- Enquadramento com as guias do monitor ligadas, olhando as bordas e o recorte vertical.
- Foco com zoom e balanço de branco manual nas duas câmeras.
- Claquete, ou identificação falada e uma palma, para o editor sincronizar e achar o take.
- Dez segundos de teste revistos no fone, para pegar imagem piscando ou lapela que escorregou.
Se a diária tem vários vídeos, o cronograma da gravação precisa de tempo para as trocas de set entre eles.
Como isso funciona no RecReview
No RecReview, a diária é um plano de produção, e cada vídeo é um bloco que traz junto a tarefa e o roteiro.
O teleprompter abre desse plano, no notebook, e a tela do apresentador mostra o tempo decorrido e o que falta do bloco, estimado pelo roteiro.
As telas entram por QR code ou link, sem login. Cada uma tem o seu espelho, e tela nova começa sem espelho, então o tablet embaixo do vidro fica espelhado e uma tela ao lado da câmera, lida direto, não.
Ao lado do texto, quem opera acompanha até quatro fontes: câmeras ligadas ao notebook, por uma placa de captura HDMI, por exemplo, ou uma janela compartilhada, como a chamada de vídeo com alguém do cliente.
Cada fonte mostra um medidor de nível quando tem áudio e pode ir para tela cheia para conferir o foco. O painel não toca o som, então o fone fica no gravador.
Depois da gravação, o player de revisão desenha as guias das áreas seguras de ação e de título (93% e 90% do quadro), a grade de terços e um recorte de entrega por vez, em 9:16, 4:5, 1:1 ou 16:9.
A tecla G mostra as áreas seguras e, apertada de novo, esconde as guias. Com o 9:16 ligado, dá para ver se a entrevista se sustenta na versão vertical. A página do teleprompter tem o resto.






