Blog · Pós-produção

Gestão de LUTs na produtora, do set até a correção de cor

LUT técnica converte o log para um padrão de visualização, LUT criativa carrega um look, e confundir as duas custa uma diária de cor. Como nomear, versionar e guardar LUTs e levar o mesmo look do set para a edição e a cor.

Samuel Silva2 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Comentário no frame com desenho e a resposta de quem faz a cor
Duas versões lado a lado, com a cor diferente em cada uma

A LUT é um arquivinho que decide a cara de uma gravação inteira: no monitor do set, na ilha de edição e no primeiro passe de cor. Quando a equipe usa a errada, ninguém percebe até o colorista abrir o projeto.

Quase todo problema com LUT começa no jeito de cuidar dos arquivos. O caso típico é um “look_final.cube” em três notebooks, cada cópia um pouco diferente da outra.

Em resumo

  • LUT técnica converte o log da câmera para um padrão de visualização e só serve na curva log e no gamut para os quais foi feita.
  • LUT criativa carrega um look, e é preciso saber se ela espera log ou Rec. 709 antes de empilhar.
  • Tenha uma biblioteca de LUTs por projeto, ponha câmera, conversão e versão no nome do arquivo e nunca salve por cima de uma versão antiga.
  • No set, monitore pela LUT e grave log limpo, e use o mesmo arquivo no copião, na edição e como ponto de partida do colorista.

LUT técnica e LUT criativa

LUT (look-up table, tabela de consulta) leva cada cor de entrada para uma cor de saída. A LUT 1D mexe em cada canal separado, como uma curva. A 3D consegue levar qualquer cor para qualquer lugar, e é dela que conversão e look precisam.

LUT técnica é conversão. Ela leva uma curva log, como ARRI LogC4, Sony S-Log3 ou Canon Log 3, para um padrão de visualização, normalmente Rec. 709. Os fabricantes de câmera publicam essas LUTs, e cada uma é feita para uma única curva log e um único gamut.

LUT criativa carrega um look, como uma emulação de filme, a cor de uma marca ou o estilo que o diretor de fotografia e o colorista acertaram no teste.

Algumas LUTs criativas esperam log e já fazem a conversão por dentro. Outras esperam Rec. 709 e entram depois de uma LUT técnica.

Os erros com LUT que custam uma diária

Quase todo desastre de cor numa gravação vem de cinco erros, todos baratos de evitar:

  1. A LUT técnica errada. LUT de LogC3 em material LogC4, ou de S-Gamut3 em S-Gamut3.Cine, fica quase certa, e é por isso que ninguém pega no set.
  2. Conversão em dobro. Uma LUT criativa feita para log colocada depois de uma LUT log para 709 converte o material duas vezes, e a imagem sai esmagada e saturada demais.
  3. O look gravado no arquivo. Algumas câmeras gravam com a LUT aplicada. Em material log, isso joga fora a latitude que fez você gravar em log.
  4. Exportação de revisão direto do log. O cliente recebe uma imagem cinza e lavada e manda comentário de cor sobre uma cor que ainda não existe.
  5. LUT ajustada e salva com o nome antigo. Agora duas pessoas têm dois looks com o mesmo nome de arquivo, e os planos param de casar.

Como organizar e versionar LUTs

Tenha uma biblioteca de LUTs por projeto, no storage compartilhado, com técnicas e criativas em pastas separadas. As LUTs dos fabricantes ficam exatamente como foram baixadas, com uma anotação de onde e quando vieram.

Ponha câmera, conversão e versão no nome de cada arquivo, para achar a LUT certa sem precisar abrir:

ARRI_LogC4-AWG4_to_709_v1.cube
SONY_SLog3-SG3C_to_709_v1.cube
ACME_lancamento_look_v03.cube
ACME_lancamento_look_v04.cube

LUT alterada ganha número de versão novo, nunca o nome da anterior. Deixe na pasta um arquivo de texto curto com o que mudou, quem mudou e quando. O mesmo hábito que evita o arquivo final_FINAL_v3 vale aqui.

Só o colorista ou o diretor de fotografia gravam na pasta das criativas. O resto da equipe só lê. Na maioria dos storages isso é permissão de pasta, e impede que a versão “só dei uma clareada” se espalhe.

Congele a LUT do projeto antes da primeira diária. Depois que o copião começa, look novo só com acordo entre diretor de fotografia e colorista, e a versão nova vai para todo mundo de uma vez.

Como levar o mesmo look do set até a cor

O objetivo é diretor, editor, cliente e colorista partirem da mesma imagem. Para isso, o mesmo arquivo passa por todas as etapas:

  1. Antes da gravação. O diretor de fotografia e o colorista criam ou escolhem o look no teste de câmera e exportam em .cube, normalmente com 33 pontos. O arquivo entra na biblioteca do projeto e nos cartões da câmera ou do monitor.
  2. No set. A LUT vai nas saídas de monitor e a câmera grava log limpo. Ajuste por cena vira valor de CDL (slope, offset, power e saturação), que a pós aplica com exatidão, em vez de LUT nova.
  3. Copião. A mesma LUT, mais o CDL quando houver, vai nas conversões do copião, e o diretor assiste ao material da noite com o look aprovado no set. O post sobre revisão do copião fala dessa noite.
  4. Edição. O editor aplica a LUT sem mexer na mídia: no Premiere pelo painel Lumetri Color, no Resolve num nó, a partir da pasta definida em Project Settings > Color Management. Se os proxies foram gerados com a LUT aplicada, os originais aparecem lavados na reconexão, então ponha a LUT na timeline antes.
  5. Cor. O colorista tira a LUT do editor e parte do log, com a transformação técnica ou o gerenciamento de cor do projeto, usando a LUT do projeto como referência, e não como resposta pronta.
  6. Revisão e entrega. Toda exportação que o cliente vê sai com o look aplicado. Como conduzir essa rodada está no post sobre revisão de cor com o cliente.

Como isso funciona no RecReview

O RecReview não aplica LUT nem guarda biblioteca de LUTs. O player mostra o arquivo que você exportou, então a cópia de revisão precisa sair com o look aplicado. Exportação em log chega cinza para o cliente.

Quem assiste pode trocar o player para Original, que toca o arquivo que você subiu em vez da cópia leve de streaming. Numa rodada de cor, isso tira a compressão da discussão.

Cada cor refeita que você sobe vira uma versão numerada na mesma tarefa. O Comparar toca duas versões sincronizadas, lado a lado, em divisão ou sobrepostas, e o cliente confere a cor nova contra a anterior, e não contra a memória. Mais em como comparar duas versões.

O cliente comenta no frame e pode desenhar na imagem para circular o plano que está estranho, e o colorista responde na mesma conversa.

A tarefa pode levar o pacote de LUTs como anexo .zip, junto com stills de referência em JPEG ou PNG, até 50 MB por arquivo. Todo mundo do seu workspace abre os anexos da tarefa e o cliente nunca os vê, então o editor freelancer recebe o mesmo arquivo que o colorista.

O cliente vê a cor que você exportou.

No RecReview, o player toca o arquivo como você exportou, cada cor refeita vira uma versão numerada na tarefa, e o Comparar toca essa versão sincronizada com a anterior, lado a lado, em divisão ou sobreposta.

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Player de revisão tocando a versão em Original, o arquivo enviado

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre LUT técnica e LUT criativa?

A LUT técnica converte o material de um espaço de cor para outro, quase sempre o log da câmera para Rec. 709, e só funciona na curva log e no gamut exatos para os quais foi feita. A LUT criativa aplica um look. Algumas esperam log na entrada, outras esperam Rec. 709, e é preciso saber qual antes de empilhar.

Vale gravar com a LUT aplicada na câmera?

Quase nunca. Ponha a LUT nas saídas de monitor e grave o log limpo, para a cor manter toda a latitude. Gravar com o look aplicado só faz sentido quando não vai ter correção de cor e o material segue direto para a edição, e isso se combina antes com o diretor de fotografia.

Qual formato e tamanho de LUT usar?

O .cube é lido pelo Premiere, pelo Resolve, pelo Final Cut e pela maioria dos monitores. Em LUT 3D, 33 pontos por canal é o tamanho comum, e 65 pontos é o que o colorista usa quando quer mais precisão. Uma LUT de 17 pontos pode mostrar degraus em degradês suaves.

O cliente consegue revisar material em log com a LUT aplicada no navegador?

A maioria das ferramentas de revisão, o RecReview incluído, toca o arquivo como foi exportado e não aplica LUT. Exporte a cópia de revisão com o look aplicado, senão o cliente vê uma imagem cinza e lavada e comenta uma cor que ainda nem existe.

Sua próxima produção, inteira num lugar só.

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