Seis meses depois da entrega, chega um e-mail da nova gerente de marketing do cliente: “Vocês conseguem mandar todo o material bruto da gravação? Vamos montar uma equipe de vídeo aqui dentro.”
A proposta não dizia nada sobre bruto. Agora você discute quanto ele vale, quais arquivos ela quer e quem paga o HD, com quem nem estava lá quando o job foi orçado.
Dá menos trabalho decidir antes da diária e deixar a regra na proposta.
Em resumo
- Pergunte para que o cliente quer o bruto, porque reeditar ou guardar pede bem menos que os arquivos de câmera.
- Escolha um padrão (não incluso, incluso, taxa à parte, só a seleção ou depois da quitação) e escreva na proposta.
- Cobre a cópia e a licença de uso do material em duas linhas separadas.
- Diga quais arquivos vão: arquivo de câmera com som e LUT, proxy ou seleção.
- O projeto da edição fica de fora, a não ser que o cliente compre, e trilha e banco de imagens também.
Por que o cliente pede o bruto
Pergunte o que ele vai fazer com o material, porque o motivo muda a resposta. Quase sempre é um destes:
- Reeditar: um corte curto para a feira, uma fala solta para o LinkedIn, uma versão com o logo novo.
- Guardar. Pagou a diária e quer as imagens na prateleira.
- Contratou um editor interno e precisa de material.
- Vai trocar de produtora, e a nova pediu “tudo”.
Para reeditar, bastam alguns takes bons, e não três horas de entrevista, e para guardar serve arquivo que abre em qualquer notebook. Só o editor da casa e a produtora nova precisam mesmo dos arquivos de câmera e do som.
Quanto vale o bruto
O cliente enxerga o custo da diária: equipe, equipamento, deslocamento, duas horas da agenda do presidente da empresa. Pagou por isso, então as imagens já são dele.
Só que o enquadramento, a luz e a direção são seus, e no bruto também estão os takes que você nunca mostraria: a fala que travou, o presidente olhando o celular, o plano aberto com o boom entrando no quadro. Escolher o que fica de fora faz parte do trabalho.
Depois que o material sai, outra pessoa pode editar mal, e quem sabe que a gravação foi sua vai achar que o resultado também é.
As autorizações de imagem e de locação foram assinadas para um vídeo, e reaproveitar as imagens em outras peças pode ir além delas.
De quem é o material depende do contrato e do país. No Brasil, a Lei de Direitos Autorais manda interpretar de forma restritiva os contratos sobre direito autoral (art. 4º), o que dá ainda mais peso ao que está escrito na proposta. Isto não é parecer jurídico.
Cinco jeitos de responder
Escolha um como padrão e escreva na proposta:
| Opção | Quando serve | O que escrever |
|---|---|---|
| Não incluso | A maioria dos vídeos avulsos | O bruto fica com a produtora e a cópia é orçada a pedido |
| Incluso | Evento, equipe interna, cliente que vai reeditar | Quais arquivos, em que formato, até quando |
| Taxa à parte | Cliente que pode querer depois | Uma taxa pela cópia, mais um valor pelo uso |
| Só a seleção | Material para cortes futuros | Quem escolhe os takes, quantos, com quanta sobra |
| Depois da quitação | Qualquer uma das anteriores | O bruto sai quando a última parcela é paga |
A taxa tem duas partes que se confundem fácil. A cópia é o seu tempo copiando, conferindo e organizando os arquivos, mais o HD.
O material é outra linha, a licença para reaproveitar o que você gravou, e dá para calculá-la pelo que o cliente gastaria para gravar tudo de novo.
A última linha combina com as outras. Bruto que só sai depois da última parcela não vira motivo para ela atrasar, a mesma lógica de segurar o master até o pagamento.
Arquivo de câmera, proxy ou seleção
Cada um entende uma coisa diferente por “bruto”, então diga quais arquivos.
Arquivo de câmera
O arquivo de câmera é o que saiu do cartão, sem mexer. Copie a pasta inteira de cada cartão, porque algumas câmeras guardam metadados em arquivos auxiliares que o programa de edição procura.
Imagem em log parece lavada e cinza até receber a LUT, então mande a LUT com um aviso. Se o som foi para um gravador separado, entregue os WAVs, senão o cliente edita com o áudio de referência da câmera.
Arquivo de câmera pesa. A Apple estima o ProRes 422 HQ em cerca de 220 Mbps em 1080p a 29,97 fps, perto de 100 GB por hora: duas câmeras gravando três horas cada dão uns 600 GB. Isso vai num HD.
Formate em exFAT, que funciona no Mac e no Windows, copie com um programa que confere checksum e só apague a sua cópia depois que o cliente confirmar que tudo abre.
Junte um arquivo de texto com as datas, as câmeras, a taxa de quadros, o perfil de cor e o que não está no HD.
Proxy
Proxy é uma cópia leve, um arquivo H.264 ou ProRes Proxy por clipe, que abre em qualquer lugar. Serve para guardar ou para o cliente achar um plano e pedir o original. Não serve para colorir nem finalizar.
Seleção
A seleção são os takes bons da decupagem, exportados com alguns segundos de sobra, e cabe num link de transferência (como enviar vídeo pesado compara as opções).
Quanto tempo você guarda cada um é outra promessa, para a proposta e o e-mail de entrega.
O que fica de fora
O projeto da edição fica de fora, a não ser que o cliente compre. Ele não abre direito sem as mesmas mídias, fontes e plugins, e mostra exatamente como você trabalha. Orce a cessão à parte (o modelo de proposta tem o texto).
Trilha e banco de imagens também. A licença cobre a música ou o clipe dentro da sua edição, para quem comprou, e o cliente com o WAV na mão em geral não pode usá-lo sem licença própria.
Vale o mesmo para o que não veio desta diária, como planos do seu acervo ou aéreas que você licenciou.
Tem pedido de “só o bruto” que na verdade é trabalho novo. “Dá para separar os cinco melhores planos da fábrica para um vídeo novo?” é assistir, escolher e exportar. O post sobre escopo ajuda a separar uma coisa da outra.
Texto para a proposta
Duas versões para adaptar. É texto de produtora, não parecer jurídico: peça para um advogado ler a sua uma vez.
Material bruto (não incluso). O valor cobre as entregas da seção 3. Material bruto são os arquivos de câmera e as gravações de som da diária, como foram gravados, sem edição, cor ou trilha, e ele não está incluso. Depois da quitação, podemos entregá-lo num HD, com uma taxa de [valor] pela cópia e mais [valor] pelo uso em outras produções do [Cliente]. Guardamos o bruto por [número] meses depois da entrega.
Material bruto (incluso). Em até [número] dias úteis depois da quitação, o [Cliente] recebe num HD os arquivos de câmera e as gravações de som da diária, e pode usá-los nas próprias produções. As autorizações de imagem e de locação cobrem [os usos desta proposta], e outros usos pedem novas autorizações, a cargo do [Cliente]. Trilha, banco de imagens e projeto da edição não estão inclusos. Vídeos editados por terceiros a partir deste material não levam o crédito da [Produtora].
Seja qual for a versão, mantenha a frase que define material bruto. Sem ela, o cliente pode esperar, com razão, clipes tratados e organizados.
Como isso funciona no RecReview
O RecReview é onde os cortes são revisados, aprovados e entregues, e não foi feito para guardar arquivo de câmera: cada arquivo enviado pode ter até 2 GB no Creator, 5 GB no Pro e 10 GB no Studio.
Os cartões vão para um HD, e o RecReview cuida do que sai da ilha de edição e do registro de quem baixou.
Ele não sabe quando a parcela foi paga, então o mais perto de “depois da quitação” é a aprovação.
Na página de revisão, o botão de baixar aparece para o contato que pode aprovar, depois que ele aprova a versão. No portal do cliente, o vídeo pode ser baixado quando a tarefa é entregue.
Ligue “Permitir download antes da aprovação” para um cliente e os dois liberam antes, com cada download antecipado registrado e um aviso para a equipe. O player ainda toca o arquivo original, então isso controla o botão de baixar, sem trancar a imagem.
O download pelo portal entra no histórico do contato, e a aba Atividade recente do compartilhamento mostra quem abriu o link e quantas vezes.
Quando o cliente troca de produtora, gere um link de revisão novo e o antigo para de funcionar.
Quem abrir um vídeo a que não tem mais acesso vê um formulário de pedido, e quem subiu o vídeo libera ou recusa. Mais sobre acesso e segurança.





