A entrevista rendeu e o cliente saiu contente. Dois dias depois, o editor abre o material e não acha o close das mãos no teclado, o que a coluna de vídeo do roteiro pedia na linha quatro.
Alguém lembra de ter lido isso no roteiro, mas ninguém tinha uma lista na mão enquanto a luz estava montada naquele canto do escritório.
Essa lista é a decupagem técnica, a shot list dos americanos. Ela pega cada imagem que o roteiro pede, soma os planos que a edição vai querer de qualquer jeito e põe tudo na ordem em que a equipe vai gravar, com um quadradinho para ticar em cada linha.
Decupagem também é o trabalho de depois da gravação, quando alguém assiste ao bruto e anota as falas boas com a minutagem. Esse sentido está no post sobre decupagem de entrevista. Este aqui trata da decupagem técnica, a de antes de gravar.
Em resumo
- A decupagem técnica transforma cada imagem do roteiro, mais os planos que a edição vai querer, em linhas que a equipe tica na diária.
- Cada linha traz enquadramento, ângulo e movimento, ação, som, setup, minutos e prioridade.
- Ordene as linhas por local e setup, do aberto para o fechado, menos os planos presos ao relógio ou a uma pessoa.
- Inclua cobertura para cada entrevista e um minuto de room tone em cada sala onde alguém fala.
- Marque cada plano como obrigatório ou desejável antes da diária e mande a lista ticada ao editor com o material.
Decupagem técnica, storyboard e roteiro
O roteiro diz o que se vê e o que se ouve, na ordem da história. No roteiro em duas colunas, a coluna da esquerda já descreve as imagens, mas de um jeito solto. “Imagens do time trabalhando” pode virar quatro planos ou quarenta.
O storyboard desenha os quadros. Ele compensa quando a composição é o que importa, como num comercial com revelação de produto. Vídeo institucional quase sempre pula essa etapa.
A decupagem técnica é o documento de trabalho da diária. Cada linha é um plano que a câmera precisa fazer, com enquadramento, ângulo e movimento, o que está no quadro, como o som é captado e quanto tempo leva.
A hora de cada bloco do dia é trabalho do cronograma, assunto de como montar o cronograma de gravação.
As colunas e um modelo para copiar
| Coluna | O que vai nela |
|---|---|
| Bloco | A linha do roteiro ou a cena a que o plano pertence |
| Plano | O número do bloco mais uma letra: 3A, 3B, 3C |
| Enquadramento | PG (plano geral), PM (plano médio), PP (primeiro plano, o close), PD (plano detalhe) |
| Ângulo e movimento | Altura dos olhos, plongée ou contra-plongée; fixo, pan, tilt, travelling, na mão, gimbal, slider |
| Ação | Quem ou o que está no quadro e o que acontece |
| Som | Som direto, sem som, som ambiente ou room tone |
| Observações | Lente, quadros por segundo para câmera lenta, “proteger 9:16” |
| Setup | O local e a posição de câmera que o plano divide com outros |
| Min | Minutos estimados para fazer o plano, repetições incluídas |
| Prioridade | Obrigatório ou desejável |
| Feito | O tique, mais o take bom ou o nome do arquivo |
O número do plano diz onde ele entra na edição, e a ordem das linhas diz quando gravar. Mantenha os dois, porque gravar o 3B antes do 1A é o normal.
Para começar a planilha, cole este cabeçalho na primeira célula do Google Planilhas e use Dados > Dividir texto em colunas. No Excel, é Dados > Texto para Colunas, com ponto e vírgula como separador.
Bloco;Plano;Enquadramento;Ângulo/movimento;Ação;Som;Obs;Setup;Min;Prioridade;Feito
Exemplo preenchido: um vídeo de 90 segundos sobre o time
Um cliente inventado, a Vértice Software, quer 90 segundos apresentando o time de atendimento, com duas entrevistas, o pessoal trabalhando e a fachada do escritório.
Tudo acontece no mesmo prédio, numa manhã, e as linhas estão na ordem de gravação: quatro na sala de reunião, quatro no salão de atendimento e duas na rua.
| Plano | Enquadramento, ângulo, movimento e ação | Som | Min | Prioridade |
|---|---|---|---|---|
| 3A | PM na câmera A, PP na câmera B, altura dos olhos, fixo. Renata, gerente de atendimento, responde a seis perguntas | Direto, lapela e boom | 40 | Obrigatório |
| 7A | Mesmo setup. Tiago, atendente, responde a quatro perguntas | Direto, lapela e boom | 30 | Obrigatório |
| 3B | PP de cobertura, mesma luz. As mãos dos dois, o caderno na mesa, a janela | Sem som | 10 | Obrigatório |
| RT1 | Room tone da sala de reunião, todo mundo parado | Um minuto de silêncio | 5 | Obrigatório |
| 6A | PM, câmera na mão. A reunião rápida das 11h no quadro branco | Direto, boom | 15 | Obrigatório |
| 2A | PG, plongée da escada, fixo. O salão, gente no telefone | Sem som | 10 | Obrigatório |
| 4A | PD, slider. Mãos no teclado, a fila de chamados na tela (o cliente limpa os dados antes) | Sem som | 15 | Obrigatório |
| 2B | Inserts em PP. Um headset na mesa, uma caneca com o logo | Sem som | 10 | Desejável |
| 1A | PG, contra-plongée, fixo. A entrada com o logo no vidro | Som ambiente | 10 | Obrigatório |
| 1B | Tilt da placa até o alto do prédio | Sem som | 5 | Desejável |
Os dez planos somam 150 minutos de câmera. Antes da primeira entrevista tem uma hora para iluminar a sala, e a mudança para o salão mais a saída para a rua comem uns 45 minutos, números que vão para o cronograma da diária.
Se a manhã atrasar, o 2B e o 1B são os primeiros a cair.
Ordene por setup, não pela ordem do roteiro
Junte os planos do mesmo local e, dentro dele, os do mesmo setup. O que mais come a diária é montar luz e mudar a câmera de lugar.
No exemplo, as duas entrevistas usam a mesma luz e as mesmas cadeiras, então o Tiago senta assim que a Renata levanta, mesmo com as falas dele quatro linhas depois no roteiro. Luz e enquadramento desse tipo de entrevista estão no post sobre gravar falando para a câmera.
Dentro de um setup, grave o aberto primeiro e vá fechando. O plano geral mostra mais da sala, então é o mais difícil de iluminar, e depois dele os mais fechados pedem só ajustes pequenos.
Grave tudo o que olha para um lado antes de virar a câmera, porque o contraplano obriga a mudar luz, tripé e quem fica atrás da câmera.
Dois tipos de plano furam a regra. Alguns dependem do relógio: a reunião das 11h acontece com ou sem você pronto, e o diretor da empresa pode ter só das 9h30 às 10h.
Esses entram primeiro e o resto se encaixa em volta, por isso o salão, no exemplo, começa pela reunião e não pelo plano geral.
Outros dependem de uma pessoa, então os planos com o talento vêm antes, e a cobertura preenche os buracos enquanto alguém troca de roupa ou atende o telefone.
Cobertura, inserts e room tone
Cada imagem de apoio na coluna de vídeo do roteiro vira pelo menos uma linha, em geral duas, um aberto e um detalhe. No exemplo, o salão virou 2A e 2B, e o editor ganha opção de enquadramento.
A cobertura das entrevistas é o que o roteiro não cita e a edição vai pedir. A resposta é enxugada, e cada corte precisa de uma imagem por cima, como mãos, um detalhe da sala ou o produto. Dê a ela uma linha própria em cada setup de entrevista, como o 3B.
Room tone não é imagem, mas entra na lista porque é o que todo mundo esquece. Um minuto de silêncio em cada sala onde alguém fala deixa o editor tapar buracos no diálogo sem o fundo mudar.
Se a lista de entregáveis tem cortes verticais, escreva “proteger 9:16” nas observações de cada plano que eles vão usar, para a câmera deixar folga dos dois lados.
Quando ninguém deixa, a conta chega na edição, como mostra o post sobre transformar vídeo horizontal em vertical.
Marque o obrigatório e tique no set
Marque todos os planos antes da diária. Obrigatório é o plano sem o qual a edição não fecha: as entrevistas, toda linha do roteiro que pede imagem, o plano do produto que o cliente pediu pelo nome. Desejável tem substituto, como um segundo ângulo ou um detalhe que outro insert cobre.
A marcação faz diferença às três da tarde, quando a diária está uma hora atrasada e o diretor precisa cortar planos sem discutir no set.
Combine os obrigatórios com o cliente antes, junto com o resto do checklist de pré-produção.
No set, uma pessoa cuida da lista, em geral o produtor ou o assistente de direção. Ela tica quando o diretor dá o plano por feito, o que nem sempre coincide com a câmera parar, e anota ao lado o take bom ou o nome do arquivo.
Mudanças vão nas observações (“4A feito na mão, o slider não coube”). Antes de desmontar um setup, leia em voz alta as linhas dele sem tique, porque dez minutos ali custam menos que reiluminar depois do almoço.
No fim do dia, a lista vai para o editor com o material. Os tiques dizem o que existe e os takes dizem onde procurar. Plano obrigatório sem tique vira a lista da regravação.
Como isso funciona no RecReview
O RecReview não tem decupagem técnica. A lista continua na sua planilha ou na coluna de vídeo do roteiro, e o plano de produção trabalha um nível acima. Cada bloco é um vídeo inteiro, ligado à tarefa dele, e não um plano de câmera.
Cada bloco de vídeo mostra a duração estimada e o tempo de gravação, que é essa duração vezes o ritmo da diária (Otimista 2×, Normal 2,5×, Realista 3× por padrão, Conservador 4×).
A duração em geral sai das palavras faladas no roteiro, então a estimativa serve para quem lê para a câmera. Um vídeo feito de entrevistas e cobertura, como o do exemplo, pede o total da decupagem, e você digita esses minutos por cima do tempo de gravação do bloco.
Escolha o ritmo antes, porque trocá-lo recalcula todos os blocos de vídeo. Você arrasta os blocos para a ordem do dia, com blocos de Mudança de Setup entre vídeos de setups diferentes.
A decupagem pode ficar como anexo na tarefa do vídeo, seja o link da planilha ou o próprio arquivo (CSV, Excel ou PDF, até 50 MB), e clicar no bloco de vídeo no plano abre essa tarefa.
Se os planos estão na coluna de vídeo do roteiro, o plano compartilhado já tem o link do roteiro em cada vídeo. A coluna Talento diz quem aparece.
Uma nota no bloco, como “reunião das 11h” ou “2B e 1B são desejáveis”, aparece no plano compartilhado, que abre sem login.
Na diária, marcar um bloco como concluído registra a hora em que ele terminou, mostra quantos minutos adiantou ou atrasou e muda o horário do resto do dia. Os tiques plano a plano continuam na sua lista.





